Com a palavra, nosso correspondente internacional

5 12 2011

O George é um cara que eu conheço há uns quinze anos. Em todo esse tempo, praticamente não tenho lembrança de vê-lo sem um sorriso no rosto. Gaúcho que nem eu, há um bom tempo ele está solto pelo mundo. Já morou em uma meia dúzia de países, fora outro tanto que provavelmente ele não comenta muito por piedade de nós, meros mortais. Aliás, esses tempos estava em um que eu nem sabia que existia, e isso que eu sempre fui bom em geografia: é Jersey, uma ilha no Canal da Mancha, que tem algum tipo de vínculo com a coroa britânica (mas que eu achei melhor não perguntar muito). O cara já deu a volta ao mundo fazendo rapel, voando de asa delta, saltando de pára-quedas, nadando com tubarões, fazendo trabalho voluntário na África e por aí afora. Perto dele, o Amyr Klink e a Dani Monteiro são aprendizes.

Pois o George foi um dos primeiros amigos que leu este blog e curtiu, quando eu nem sabia ainda qual tinha sido a nossa nota no Apgar. Mesmo com versatilidade tão grande, o cara curte muito uma bike. De pronto, se ofereceu para compartilhar algumas das experiências que teve no período em que está na Europa. Sem mais delongas, deixo os amigos leitores com as palavras do nosso mais novo correspondente internacional, George Justo.

Nosso enviado especial em viagem de cicloturismo

De bicicleta na Europa

Eu sempre gostei de pedalar. Aprendi a andar sem rodinha com 5 anos e segui pedalando durante minha infância e adolescência. Quando me mudei para São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, fui morar a 3km da escola. Distância ideal para ir todo dia pra aula de bicicleta. Lembro com saudades de descer a ladeira sem mão no guidon e até tentar fazer a curva “sem mão”. Coisa de guri, mas que saudades daquele tempo!

Aos 17 anos fui estudar em Porto Alegre. Levei a magrela comigo. Mas já era um pouco mais difícil de utilizá-la como meio de transporte, pois o campus do vale da UFRGS ficava a 15km do centro, onde eu morava. Além disso, o trânsito do centro até o campus não era muito “bike friendly” com seus motoristas impacientes, dezenas de ônibus e nenhuma ciclovia . Era mais seguro (ainda que entediante) pegar um ônibus. Mas naquela época eu ainda dava umas pedaladas pelo Gasômetro, Morro do Osso, Ipanema. A bike, que era meio de transporte na minha adolescência, passou a ser um lazer no fim de semana.

Depois que comecei a trabalhar, como bom brasileiro, comprei um carro. Ah, que beleza! Agora sim eu era gente grande. Podia ir de carro pra universidade, pro trabalho e pra balada. A bike ficou definitivamente de lado, abandonada, virou cabide na minha área de serviço.

Bem, com 29 anos eu resolvi morar na Europa. Já morei em Londres e Jersey. Atualmente vivo em Genebra (Suíça).

Londres, apesar de ser uma metrópole de 7 milhões de habitantes, é uma cidade “bike friendly”. Há ciclovias, pode-se levar a bike no trem e é “normal” usar a bike como meio de transporte. Ali recomecei a encarar a bike daquela forma, e não somente um hobby como era em Porto Alegre. 

Comprei uma bela bike e comecei a utilizá-la para trajetos curtos. Era mais rápido que pegar ônibus ou metrô, além da alegria proporcionada pela pedalada.

O que eu achei mais interessante de Londres é que a bike é integrada ao sistema de transporte. As vezes eu pegava a bike, pedalava até um ponto, pegava um trem, descia numa certa estacão e pedalava mais um pouco. A maior parte do trajeto era por ciclovias ou ruas secundárias, sem trânsito pesado.

Jersey, uma ilha de apenas 90 mil habitantes, foi um lugar ideal pra magrela. O trajeto casa-trabalho era só 5km e aí eu comecei a usar a bike como meu principal meio de transporte. Lembro que ao acordar pra trabalhar, ficava feliz porque a primeira coisa que eu faria no meu dia seria uma agradável pedalada pela avenida beira-mar de casa até o trabalho. Mesmo no inverno britânico, debaixo de chuva e vento, a pedalada era um prazer. Eu me sentia em contato com a natureza e aquela pedalada matinal servia pra me acordar legal.

O banco onde eu trabalhava também era “bike friendly”. Havia um estacionamento coberto para as bikes, chuveiro e vestiário. Minha rotina era muito boa: acordar, pegar a bike, pedalar 5km a beira-mar, chegar no banco, tomar um banho e estar pronto pro trabalho. Ao final do dia, outra felicidade: tirar o terno e a gravata, colocar uma bermuda e camiseta (ou abrigo e jaqueta pro frio) e voltar pra casa. No verão, ainda parava na praia pra dar um mergulho. Chegava em casa “novinho em folha” depois de uma pedalada e um pulo no mar. O stress do trabalho ficava pra trás.

Academia? Good bye! Engarrafamento? Passava ao largo dele. Regime? Pedalando 10km por dia, podia comer tudo que eu quisesse. Humor? Em alta! 

Lembro que mesmo o presidente do banco às vezes usava a bike como meio de tranporte. O cara tinha status, um salário astronômico, uma Ferrari na garagem e às vezes pegava a bike pra ir trabalhar. Não só isso, mas ainda estimulava todos os funcionários a fazerem o mesmo. Já imaginaram um alto executivo de um banco pedalando na Av. Paulista? Acho improvável.

Uma coisa curiosa é que eu tinha carro em Jersey. Usava o carro quando era necessário: ir ao mercado, buscar alguém no aeroporto, sair a noite pra jantar fora, enfim, às vezes o carro ainda era o meio de transporte mais prático. Mas aos poucos fui achando “boring” ir de carro. Pedalar tornou-se tão bom pra mim que eu naturalmente passei a usar o carro com menos frequência. 

Bicicletas públicas em Estocolmo: um continente "bike friendly"

Atualmente vivo na Suíca, um paraíso para ciclistas. Apesar do relevo montanhoso, esse país é muito “bike friendly”. Existem ciclovias locais, regionais e mesmo “federais”. Os motoristas respeitam os ciclistas e o sistema de transporte é integrado para usar bicicletas. Muitas cidades ainda oferecem bicicletas gratuitas para quem não tem sua própria magrela.Uma vez resolvi experimentar uma ciclovia “federal”, ou seja, uma ciclovia que atravessa diversos “cantões”, o que equivalente aos nossos estados no Brasil. Não só a ciclova era exclusiva (sem tráfego de carros ou motos), mas bem sinalizada e bem pensada. Passei pelos principais pontos turísticos da Suíça com direito a vistas de montanhas, lagos, geleiras, cascatas, cidades, enfim, um legítimo cicloturismo. 

Pedalei 550km durante 8 dias, de Genebra até Lugano, passando por lugares lindíssimos como Montreux, Lausanne, Interlaken, Luzern e São Gothardo. Encontrei vários cicloturistas pelo caminho: desde “bicho-grilo” que usa a bike como filosofia de vida até famílias inteiras pedalando “just for fun”.Eu curti demais esse tipo de viagem.

O cicloturista é sempre bem-vindo onde vai e passa por lugares pouco visitados, tornando sua viagem muito mais interessante e autêntica. Eu me lembro de parar em vilarejos remotos no meio da Suíça e não ver turista algum. E no final da viagem o senso de realização de um objetivo é muito bom. Olhar no mapa e dizer: “bah, fiz tudo isso de bike!”. 

Eu sei que aqui na Europa é bem mais fácil usar a bike como meio de transporte do que no Brasil. Há infra-estrutura, segurança, respeito dos motoristas e, mais importante que tudo, uma cultura de ciclismo. Aqui é moleza ser ciclista.

Apesar de ainda termos um longo caminho a percorrer nesse sentido no Brasil, tenho esperança: vejo que já começam a pipocar movimentos de estímulo ao uso da magrela em alguns grandes centros como Porto Alegre, Rio e São Paulo. Alguns poucos heróis já utilizam a bike como meio de transporte.

Acredito que com um modesto investimento em infra-estrutura, a cultura das bikes iria se disseminar rapidinho no Brasil. Sem radicalismo e sem colocar motoristas e ciclistas em campos opostos. Bicicleta paz e amor! 

Um sonho? Na minha querida Porto Alegre, sair pedalando do Parcão, passar pela Redenção e chegar ao Gasômetro. Depois continuar pela beira do Guaíba, até a zona sul, fazer um mountain-biking no Morro do Osso. Dali chegar a Ipanema, curtir um pouco a beira do rio. Ao final do dia, voltar pro centro tranquilo na minha bici, sempre pedalando por ciclovias, de preferência em companhia de vários outros ciclistas curtindo nossa cidade em duas rodas.

George em Interlaken, cidade encravada entre lagos e os Alpes suíços

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5 12 2011
Cristian Costa

Bah, muito bom!!

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