Apropriação indébita e propaganda enganosa

6 01 2012

A nova EcoSport não é "sport" e muito menos "eco", mas tem a bênção do governo...

Essa semana eu lembrei de um trabalho bastante interessante feito pelo meu amigo Carlos Fabre Miranda quando ainda éramos colegas no curso de Educação Física da UFRGS. Era a época das Olimpíadas de Sydney, em 2000. Pra quem não lembra, foram os jogos em que os Camarões foram campeões no futebol, batendo a Espanha nos pênaltis, e quando Eric Moussambani, da Guiné Equatorial, protagonizou uma das mais inesquecíveis cenas da história dos Jogos Olímpicos. Carlos estudou a história da deusa grega da vitória, Niké, e como a empresa Nike se apropriou do seu nome e daquilo que ela representava para posteriormente vir a se tornar a maior empresa do mundo no setor de materiais esportivos. Apropriação indébita, a meu ver, já que a empresa colhe todos os louros e eu não lembro de ter visto em algum lugar a menção à pobre da Niké. Aliás, pergunte a dez pessoas sobre esse nome e onze mencionarão a empresa. (O resumo do trabalho pode ser encontrado na página 23 deste link aqui.)

Pois eu lembrei dessa história de apropriação ao ler a notícia do lançamento do novo modelo do SUV compensatório EcoSport, um carro projetado no Brasil e que passará a ser fabricado na Bahia, na Índia e na Tailândia para ser vendido no mundo inteiro. Lembrei por conta do nome “EcoSport” já que, com todas as “perfumarias” adicionadas (como faróis de led e motor um pouco mais econômico), o carro segue funcionando na base do motor de combustão interna, cuja eficiência não ultrapassa 30% da energia proveniente da queima do combustível. O restante é desperdiçado em forma de calor. Isso sem falar dos outros poluentes liberados na atmosfera e de todo o impacto ambiental que é decorrente da extração e processamento da matéria prima para produção e funcionamento do veículo, como minério de ferro e o petróleo. Cheguei a ligar para a Ford no 0800-7033673 mas a atendente disse, após a espera de praxe, que “Não, a EcoSport não tem nenhuma peça feita de material reciclado, não tem nada referente a ecologia. EcoSport é porque é um veículo que pode ser usado para rali, em montanha, em lugares mais esportivos. Então a questão é mais esportiva do que realmente ecológica.” E eu: “Ah, entendi, preocupação com ecologia no carro em si não tem nada, então?” E ela: “Não, referente a ecologia não, é um carro normal.”

Bom, então se de ecológico a EcoSport não tem nada, então pelo menos de esportivo deve ter, né? Aí então eu fui no Houaiss, que define esporte como “Atividade física regular, com fins de recreação e/ou manutenção do condicionamento corporal e da saúde”. Ou seja, não só a EcoSport, mas o automóvel em si é a antítese do princípio da atividade física regular, pois na prática promove o sedentarismo, levando as pessoas de um lugar a outro através da queima de petróleo e atrofiando seus sistemas músculo-esqueléticos, e fazendo tudo o que vai contra o condicionamento corporal e a saúde. A discussão sobre o que é esporte evidentemente não pode ficar restrita a um dicionário, que o digam meus mestres da ESEF/UFRGS, mas certamente o uso do termo por parte da indústria automobilística é muito mais uma forma apropriar-se dele para revestir seus produtos de uma imagem “saudável” e “positiva” do que de ser fiel à realidade. Se a Ford quisesse saber mesmo o que é esporte, deveria estudar com os jogadores dos Camarões e da Espanha ou até com o Moussambani, e não ficar se apoderando de façanhas alheias ao seu métier. (A bem da verdade, o Houaiss fala, no final da definição de esporte: “diz-se de automóvel de formas aerodinâmicas, de duas portas, que atinge grandes velocidades”, evidenciando o caso da apropriação da palavra pela indústria, fato que nunca foi questionado e que por isso acabou sendo tomado como verdade. Que nem aquela mentira que após repetida mil vezes se torna uma “verdade”, sabem?)

Tem gente que adora esculhambar o Brasil, e que dizer que no “primeiro mundo sim é que as coisas são levadas a sério”. Esse raciocínio é injusto e me incomoda, mas às vezes não tem como discordar. Veja só como funcionam as coisas na Noruega: de acordo com as normas publicitárias de lá, “Nenhum carro pode ser considerado ‘verde’, ‘limpo’ ou ‘ecológico’, e nem mesmo a campanha do Toyota Prius, o carro híbrido de maior sucesso no mundo, foi poupada da reprimenda norueguesa. Detalhe: essa norma já está em vigor há mais de quatro anos.

É evidente que o mercado de carros é infinitamente maior do que o de bicicletas. Mas há indícios importantes de que estamos nos aproximando do apogeu que vem antes da decadência deste modelo, momento em que pensamentos arraigados como o do “carrocentrismo” deverão ser questionados, uma espécie de divisor de águas nesta realidade. Permitam-me um pouco de ousadia no raciocínio: várias montadoras tradicionais estão abrindo o olho para outros mercados. Claro que não é uma decisão aberta de alterar a fonte principal de receita das empresas, mas está cada vez mais evidente a necessidade de associar as marcas a um modelo diferente, nem que seja em função da imagem. Olhem só os mais novos lançamentos da Ferrari, Porsche e BMW. Tem também este aqui, da Volkswagen. Casualmente, são todas empresas europeias. As norte-americanas como a Ford e a GM parecem pensar que o plano “B” é insistir no plano “A”, como mostra essa infeliz peça publicitária que teve que ser tirada do ar e motivou um pedido de desculpas da empresa.

Casualmente hoje deparei com esta matéria da Época Negócios, onde mostram uma série de propagandas que hoje parecem absurdas, mas que na época não deviam ser tão questionadas. Médicos anunciando cigarros, bebês com giletes, grávidas bebendo cerveja, e crianças empunhando armas. Não sei ainda quanto tempo vai demorar, mas daqui a uns anos ainda vamos rir dessa história da EcoSport…

À esquerda: "Os médicos fumam mais Camel do que qualquer outro cigarro". À direita: "Mostre a ela que este mundo é dos homens!"








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